Trata-se de uma dúvida genuína: afinal, a origem de um produto ou de uma matéria prima, influencia no valor do produto em si, ou no produto final?! Comecemos discorrendo que “preço” é diferente de “valor”. O “preço” é o valor unitário de um determinado produto em que ele é comercializado. Este é definido com base na contabilidade do custo de produção, distribuição e manutenção. Enquanto isso, o “valor” pode ser definido como a métrica do nível de importância que a sociedade (ou um grupo social) dá ao produto.

Quando analisamos a origem de um produto e/ou insumo (matéria prima), o seu custo é facilmente determinado e assim composto o preço. Enquanto isso, um produto “A” tendo origens diferentes (mas na mesma região geopolítica), mas equidistantes do comprador, em tese, não deveria possuir preços ou valores distintos. Será?!

Vamos considerar o seguinte exemplo: o pirarucu silvestre manejado. No Amazonas, um dos projetos mais bonitos e sustentáveis é o manejo do pirarucu silvestre. Comunidades ribeirinhas tradicionais monitoram os lagos naturais diariamente. Contam (literalmente) a quantidade de peixes naquele ano e pescam apenas uma fração correspondente à capacidade da população de se renovar naturalmente. Esta atividade se repete anualmente e estudos específicos mostram e confirmam a sustentabilidade.

Esta atividade é uma alternativa de renda para as populações locais. Até então, a principal de renda era a prática de agricultura familiar de baixo rendimento, caracterizada por uma dinâmica não sustentável: corte da vegetação natural, queima da biomassa remanescente para limpeza do terreno, introdução de culturas agrícolas e, devido às características edafo-climáticos da região amazônica, abandono e o ciclo se repete em outra área nova. Desse modo, o manejo do pescado é uma alternativa econômica que viabiliza a manutenção da cultura local, a valoração dos ativos ambientais naturais e uma poderosa ferramenta de manutenção da floresta em pé.

No entanto, infelizmente não é isso que se vê na prática. Aqui, um “parêntese” para justificar a afirmativa anterior: Não existem estudos que comprovam que o manejo do pescado não é de fato sustentável (a considerar o pilar “econômico”). MAS, mais importante ainda, não existe nenhum estudo que confirma que esta atividade é, de fato, próspera e que as populações locais estão aumentando suas respectivas rendas e, consequentemente, melhorando a qualidade de vida. Nos poucos estudos específicos, acerca da situação econômica financeira desta prática, sugere que 2017 as famílias pescadores tiveram uma receita anual de pouco mais de R$ 1,7 mil (equivalente à menos de R$ 145,00/mês).

Mas, como pode um produto como carne de pirarucu (alta qualidade, aceitação no mercado nacional etc.) não ter uma saúde financeira vibrante, a qual viabilizaria a real transformação das Unidades de Conservação que praticam este manejo?! A resposta é simples: o preço do pirarucu não leva em consideração a origem. Não importa se é fruto de um cultivo em cativeiro ou se é manejado sustentavelmente.

Além disso, depois que o peixe é pescado, abatido e processado, fica difícil diferenciar de pirarucu criado em cativeiros ou mesmo pescados de forma irregular. Assim, no mercado regional, não há diferença no preço do produto (pirarucu congelado). Logo, um pirarucu manejado, com toda o seu valor socioambiental, precisa concorrer no mesmo mercado com peixes de viveiros (produção em larga escala, custo de produção invariavelmente inferior) e com pescado ilegal.

Talvez, para reverter esse cenário e refletir o valor socioambiental dos produtos nos seus respectivos preços de mercado a tecnologia seja uma ferramenta importante. Principalmente por meio da conexão entre aqueles que manejam/produzem e aqueles que consomem. A chave para isso deverá ser a transparência, segurança e, acima de tudo, confiança. Assim, antes de consumir pergunte ao seu fornecedor(a): “Qual é a origem desse produto?”. A resposta pode surpreender.